Então você acha que galinhada é alta gastronomia? Conte-me mais sobre suas referências gastronômicas…



Danilo Verpa/Folhapress

Era para ser um hiato de 30 dias. Passaram-se quase trezentos.
Era para ser um post sobre Anthony Bourdain. Será um post sobre Alex Atala, a galinhada e os outros 21 chefs-guerreiros que enfrentaram de peito aberto a multidão no Minhocão. As coisas nem sempre acontecem como a gente gostaria.

Todo mundo já sabe que o evento "Chefs na Rua" que fazia parte da 8a. edição da Virada Cultural da cidade de São Paulo foi um primor em desorganização. Espero que todos saibam também que o caos foi promovido exatamente pelas pessoas cuja única tarefa era organizar. Sim, porque qualquer cozinheiro que se preze sabe que organização e disciplina são condições sine qua non para a profissão, que dirá para o sucesso. E os chefs que se dispuseram a encarar o desafio de servir um número inestimável de pessoas são, mesmo que em diferentes graus, todos bem sucedidos.

Eu acompanhei tudo de longe, pelo Twitter. Queria ter provado o hot dog do Raphael Despirite (restaurante Marcel), o hambúrguer de pato do Renato Carioni (restaurante Cozi) e o sanduíche de copa-lombo do Henrique Fogaça (restaurante SAL). Mais que isso, queria prestigiar a iniciativa dessas pessoas, cujo trabalho tanto admiro.

Ao saber da multidão e das filas intermináveis, contive-me. Felizmente eu posso pagar pra saborear as delícias que esses caras fazem.

E continuei acompanhado tudo virtualmente, na expectativa de ver garis, faxineiras, manicures e motoristas se esbaldando na mostarda de Dijon e na maionese trufada. Aguardei ansiosa pela foto de um sorriso banguela lambuzado de guacamole. Não chegou, não teve essa foto.

Quando o chefe do 4o. melhor restaurante do mundo se dispõe a ir pra rua servir seu prato mais humilde de graça, ele não está atrás de manchetes de jornal nem fotos na Caras. Há muito tempo ele não precisa mais disso. O que ele quer é democratizar a boa comida, popularizar a gastronomia. Talvez, quem sabe, inspirar alguém a seguir a mesma profissão. Por mim, ele merecia outro prêmio só por ter apoiado o evento.

Mas, acredite, teve muita gente reclamando. Teve até os que vaiaram. E, mais triste, não foram os garis nem as manicures. Estes estavam no Largo do Arouche dançando de rosto colado. Foram os graduados e pós-graduados. Foram os bem agasalhados, os cabelos lisos de chapinha. Que vergonha…

Mais vergonhoso ainda (embora menos surpreendente) foi a declaração do secretário de cultura do município, Sr. Carlos Augusto Calil, dizendo que a dificuldade foi "lidar com alta gastronomia em um evento de massa". Alguém, por favor, informe este senhor que não havia alta gastronomia no Minhocão. Não havia taças de cristal nem talheres de prata. O que havia era comida bem feita e barata. E comida, senhor secretário, é cultura. É cultura tanto numa tribo indígena quanto em Mônaco. E a Virada Cultural deveria ter milhares de ambulantes e barraquinhas vendendo comida boa e barata por toda cidade.

É exatamente nesse ponto que a porca torce o rabo. Hoje na TV ouvi uma declaração do ilustríssimo senhor prefeito Gilberto Kassab, comemorando o sucesso do "Chefs na Rua" e aventando a possibilidade de uma Virada Gastronômica. E isso seria exatamente o quê, senhor prefeito? Um Restaurant Week na madrugada??

O que a gente quer é que os ambulantes tenham direito de vender seus quitutes por toda a cidade. Sempre. É claro que precisa treinar, educar e fiscalizar. Ah, é. Dá mais trabalho mesmo.

A verdade é que se queremos comida de rua, não podemos contar com as mentes obtusas dos políticos. Atala sempre repete que nunca teve nenhuma ajuda governamental para nada. Melhor assim. Quando eles estão envolvidos, dá merda.

Iniciativas como a do "Mercado" há algumas semanas, e esta "Chefs na Rua", continuarão pipocando pela cidade.

Sonho com o dia em que não precisarei pegar metrô pra comer tapioca, que comprarei caldinho de feijão da mesma tia que vende café com bolo.

Não tenho certeza, mas acho que este é um sonho comum a todos os cozinheiros, chefs ou não, que trabalharam no já histórico evento.

ET: A foto que ilustra este post é da Folhapress, de propriedade da Folha de S. Paulo e eu tinha que falar do jornal de algum jeito. Explico: a Folha publicou uma matéria sobre o evento "Chefs na Rua" e foi, além de rasa, leviana. Se eu mando o editor do meu caderno de gastronomia escrever um texto sobre um evento de comida, o mínimo que eu esperaria era algum detalhe sobre a comida em si. Não teve. Teve sim, citações fora de contexto e de duplo sentido. Mas o que esperar de um suplemento que tem como colunista gastronômica uma tal de food trotter que chama o país dos outros de "paiseco" e acha que ser mundialmente famoso é ser tão reconhecido quanto David Letterman...

Um comentário:

  1. Amiga, também queria ter comido o cachorro quente... Quem sabe na próxima a gente consegue.

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